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Fiquei muito tempo afastado do blog e os motivos não interessam a ninguém. Mas vou contar assim mesmo, por que sou bondoso. A verdade é que ganhei na Mega-Sena e passei esse tempo todo conhecendo lugares que a maioria só vai conhecer quando juntar salário de dois anos inteiros para ir numa lan-house e procurar no Google Ilhas Gregas, Sicilia, Turquia e etc. apesar de muita gente ter acreditado, é obvio que é mentira, eu nem jogo na Mega-Sena. Eu poderia estar em Marte que continuaria cínico.
Quando constatei tal fato, que continuarei cínico o resto da vida onde quer que estivesse, me pus de joelhos e perguntei: “por que Senhor tenho que ver tudo com esses olhos cínicos, tão lindos, mas tão cínicos?”
Descobri meu cinismo vazio, poucas vezes havia algo além dele. Nada se poderia aproveitar do meu cinismo. Então exorcizei essa parte de mim. Doeu, chorei como uma mãe que perde o único filho, fiquei até um pouquinho mais burro e quase fui parar numa igreja, mas estava livre desse parasita.
Os meses que se passaram foram brancos. Brandos. E tediosos. Eu não ria mais. Não tinha mais graça essa gente esquisita que se vê no dia-a-dia, não tinha mais graça as merdas alheias, nem de mim eu ria mais.
No lado prático da vida o nível caiu muito e fui morar na periferia. Não falo qual por que uns manos me ameaçaram.
Eu e meus parcos pertences alugamos uma quitinete, um cortiço na realidade, tipo prédio de conjunto habitacional, os apartamentos colados um no outro, separados por paredes não finas quanto de cenografia de filme americano. Nesse tipo de lugar as pessoas gritam o dia todo, os rádios ou estão numa estação brega ou estão num pastor de voz assustadora nos ameaçando com o inferno.
Eu passava os dias em casa e numa primeira tarde qualquer, ouço os gritos de uma biba jovem. Eram finos, estridentes, esse misto de voz grave de homem com a entonação aguda de uma bicha escandalosa. Daquele tipo que vai falando, meio gritando e uma silaba de repente sobe o volume e é prolongado ad infinitum: “Peeeedro, ou então, Paaaaara Tudo!”
Fiz a imagem mental de um traveco rosa e magrelo e corri para conferir na janela. Tomei um susto. A voz vinha de um rapazola, meio gordinho, quase nada afeminado (se não abrisse a boca). Fiquei intricado.
Nos próximos dias me pus a investigar com as vizinhas. Chamava-se Robertinho, 25 anos, menino bom sempre tão alegre, diziam. Mas nenhuma delas se lembrava de uma namorada. Não trabalhava, passa os dias em casa faxinando enquanto a mãe esta garantindo o pão. Era o filho único e tinha sido criado pela avó até completar uns 12 ou 13 anos e voltar a morar com a mãe.
Todos os dias aqueles gritos me tiravam do sério. Resolvi que seria muito caridoso de minha parte ajudar o rapaz.
Na sexta a noite fui a um campo de futebol society que ficava a poucos quarteirões da minha rua. Ao lado do campo tinha bar, um boteco na verdade. Era lá que eu acharia o que procurava. Cheguei num grupo de caras bebendo:
- Hey Guys! ( as vezes falo inglês, geralmente uma palavra ou duas, ou um palavrão).
Não entenderam.
- e ae galera. Procuro o berinjela topa-tudo.
Não entenderam de novo.
- tudo bem. Procuro o bem dotado que come qualquer coisa.
Na hora me olharam como se eu fosse a bicha mais nojenta do mundo. Vi que tinha cometido um grande erro sendo direto demais.
Antes que falassem qualquer coisa, emendei.
- não é para mim. É para um amiguinho que precisa se descobrir.
Um deles respondeu apontado.
- tá vendo aquele negão ali.
Era um tipo alto, esquelético.
- sim, to.
- ele é o seu homem – O filho da puta me zoava – a maioria dos caras nem toma banho perto dele por vergonha ou medo, dizem que come qualquer coisa.
- beleza, valeu. E segui o negão.
Cheguei no negão e fui abrindo o jogo sobre o rapaz, provavelmente virgem, que precisava ser descoberto. O cara topou na hora, mas avisei quando saia:
- trata ele com carinho. Nada de forçar a barra. Violência, só consentida. Entendido. Qualquer outra coisa além disso e teremos problemas enormes.
- pode deixar que com coisa enorme eu tenho intimidade.
Meu plano era simples. O negão apareceria na segunda a tarde. O menino alegre atenderia. E o cara só teria que jogar uma lábia e pronto. Uma duvida a menos no universo. Eu só não contava com ter que pagar o cara, filho da puta comedor de viado, lhe aponto um cu virgem no reino dos bambis e ainda tenho que desembolsar cinquetinha. Ele é quem deveria me pagar pelo agenciamento.
Segunda, na hora combinada o sujeito tocou a campainha da biba. Não consegui ouvir o papo. Impressionantemente o rapazinho falava baixo, quase sussurrava e não parava de cruzar as pernas, mesmo em pé, parecia uma virgem de outros tempos namorando na porteira. Eu via tudo pela fresta da cortina. O negão era bom de lábia e menos de meia hora depois ele conseguiu entrar.
Comemorei o sucesso do meu plano. Pulei, cantei, dancei sem musica, ouvi o silencio, mas durou pouco. Logo começou o escândalo do menino. Seus gemidos invadiram meu recinto. O filho da puta tava gostando de ter o rabo marretado. E o negão gostava de marretar. Gemidos, gritos, xingamentos de amor e pornográficos. Durou a tarde toda. O negão foi embora pouco antes da mãe voltar.
Fui dormir com a total segurança de que meu martírio tinha acabado. Triste engano. Na tarde seguinte, e na seguinte, e seguinte lá estava o cara de novo marretando aquela sirene de carne. As visitas tornaram-se diárias. O que era ruim, tinha se tornado insuportável.
Um dia, quando saia da quitinete e uma velhinha que tinha sido uma das minhas informantes me parou:
- você soube? Robertinho está namorando.
- que bom para ele.
E ia saindo, não queria dar conversa para a velha, muito menos sobre esse assunto.
- e é um rapaz.
Falou com os olhos arregalados.
- oh! (como se eu já não soubesse)
- mas fica triste não que o seu vai aparecer logo logo.
Comecei a procurar moradia em outra vizinhança. Nessa eu tinha fama de viado demais. Viado, viado e pervertido e viado rejeitado.
Mas sairia feliz. Ajudei um casal a se formar. Não fosse o meu cinismo, empenho, coragem e cinqüenta reais nunca teriam se conhecido. Meu Eu cínico tinha feito sua parte para tornar o mundo um lugar melhor. Agora, ele podia voltar.
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